Pré-candidato do PT, ex-prefeito e ex-ministro afirma que é preciso repensar o estado. Ele repudia a violência contra Lula e no país. “Mas não espere que quatro tiros vão nos colocar na retaguarda”

Na sala que ocupa no diretório estadual do PT de São Paulo, o presidente da legenda, o ex-prefeito e ex-ministro Luiz Marinho, tem um mapa do estado na parede em que marca as cidades percorridas nos últimos tempos. É possível ver que ele já esteve em todos os extremos do segundo estado em número de municípios do país (645), perdendo apenas para Minas Gerais. Ele mesmo vem do interior paulista: é de Cosmorama, pequena cidade na área norte do estado, onde começou trabalhando na roça com os pais, como lembra Marinho, que completará 59 anos no mês que vem.

Vindo para a região metropolitana, há exatos 40 anos foi trabalhar na Volkswagen de São Bernardo do Campo e passou a militar no movimento sindical. Foi presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e da CUT. Já no primeiro governo Lula, foi levado pelo agora ex-presidente e ocupou os ministérios do Trabalho e da Previdência Social. Em 2009, foi eleito prefeito de São Bernardo, reconduzido ao cargo quatro anos depois. Não conseguiu fazer o sucessor, Tarcisio Secoli, mas afirma que 2016 foi um ano atípico, “um “tsunami, um ponto fora da curva”.

O desafio de agora não é pequeno. O estado de São Paulo se mantém nas mãos do PSDB desde 1995, com um breve hiato de Claudio Lembo, então no PFL, que era vice de Geraldo Alckmin quando o titular saiu para disputar a Presidência da República. Desde então, o melhor resultado para a oposição foi um segundo turno em 2002.

Marinho vê crescerem as chances do PT nesta eleição, apontando uma “situação de paralisia” no estado, o que exige energia e planejamento, incluindo ações integradas com os municípios. Lembra que ele mesmo era visto como candidato com poucas chances em 2009, quando decidiu disputar a prefeitura. “O governo do estado está assistindo São Paulo se enfraquecer a cada ano”, diz o pré-candidato.

Ele também lamenta o momento de violência política que o país atravessa, com episódios trágicos como o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco. Cita o recente atentado contra a caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “É preciso que as divergências da democracia sejam enfrentadas no campo das ideias. Agora, não espere que quatro tiros vão colocar o PT na retaguarda, que nós não vamos sair na rua, brigando, discutindo, brigando no campo das ideias. Não espere que a gente vá ficar com medo, vá pra casa, esperando que os fascistas, os retrógrados tomem conta das ruas. Vamos fazer o enfrentamento democrático”, afirma, mostrando convicção, inclusive jurídica, de que Lula será candidato à Presidência.

“O Lula talvez seja a liderança com maior capacidade pra fazer essa conjunção política, pra colocar a economia nos trilhos, pra voltar a ter esperança.”

 

São Paulo às vezes é chamado, ironicamente, de tucanópolis. Como fazer, para depois de quase um quarto de século, mudar o dono do Palácio dos Bandeirantes?

Convencer o eleitorado, convencer o nosso povo…

Como fazer isso, desta vez? É diferente em relação a outras eleições?

Você precisa olhar o cenário, a evolução… O PT já governou 62% do eleitorado do estado. Então, a máxima que São Paulo não vota no PT não corresponde à verdade. Nós nunca ganhamos uma eleição para o governo do estado, sempre passamos muito perto. Em 1998, não fosse a manobra descarada do instituto de pesquisa, da grande mídia, nós teríamos ganho aquela eleição. É bom lembrar que o Covas foi ali uma forçada de barra no voto útil em cima do eleitorado do PT. Poderia ter sido outra realidade, completamente diferente, se a gente tivesse ganho. Em 2002, nós, sob a liderança do presidente, com Genoino, nós passamos muito perto, com 43% no segundo turno. Em 2010, quase chegamos no segundo turno, 70 mil votos para São Paulo é nada, seria outra eleição.

Então, eu creio que há um processo de evolução, se você analisar os vários elementos, pode acontecer. Primeiro, porque a eleição se dá numa conjuntura complexa nacionalmente, mas é muito complexa para os tucanos, quando eles se encontram no momento mais dividido. Você tem aí PSDB 1, PSDB 2, possibilidade de candidatura do DEM, mais o homem do pato e do sapo da Fiesp, você tem um cenário de disputa diferenciado, portanto eleição em aberto.

É preciso considerar também que, de 1989 para cá, o Mário Covas reeleito fica um ano, assume o vice, que era o Alckmin. De lá para cá só deu Alckmin, revezamento com o Serra, mas o Serra ganha a eleição fica um ano e três governando, sai para ser candidato a presidente, o Claudio Lembo governa por um ano e nove meses, volta o Alckmin e é ele até hoje. O governo do estado de São Paulo é a cara do Alckmin. Sem sal, sem açúcar, sem energia, que não briga com ninguém, não entra em polêmica, não entra em dividida, mas está assistindo São Paulo se enfraquecer a cada ano, o PIB perdendo participação nacional, perdendo indústrias para estados vizinhos, e nada disso incomoda o Palácio dos Bandeirantes. São Paulo precisa reagir para recuperar o tempo perdido. Em todas as áreas, você tem uma situação de paralisia. Analise, por exemplo, os dados de educação, que deve ser prioridade para qualquer país, você tem uma situação em que os indicadores são piores que os de 1995. Ou seja, aqui há um cansaço… Não fosse isso, o Alckmin estaria liderando a disputa presidencial no estado, mas está em terceiro, praticamente empatado com a Marina.

Você já foi candidato…

Eu vejo aqui muito parecido com a eleição que disputei em 2008 em São Bernardo do Campo. Saí em maio candidato, e o Lula nem queria me liberar, porque estava satisfeito com meu trabalho na Previdência, eu com 3% de intenção de voto, e eu dizia que há um sentimento de necessidade de mudança na cidade e nós vamos ganhar essa eleição. É o mesmo que eu tenho no estado. Então, nós precisaremos acertar essa mensagem, discutir, chacoalhar o estado, território por território.

Se perguntar em qualquer região do estado de São Paulo, qual foi o nó que os tucanos resolveram, você não vai encontrar uma única área. Até as estradas, que eles se vangloriam de serem as melhores do país, as estradas pedagiadas, às vezes o custo do pedágio é maior que o do combustível. Aí você tem que analisar a economia paulista nesse aspecto. E vai observar que as estradas vicinais são de péssima qualidade, que as estradas rurais estão impactando eventualmente no custo do alimento, o escoamento da produção, a agricultura familiar, e que os pedágios estão impactando na economia. Ou seja, a economia paulista pode estar sendo comprometida por uma decisão de governo de cobrar um pedágio talvez dos mais caros do mundo. Então, há necessidade de reestruturar o jeito de pensar o estado de São Paulo, de governar, de diagnosticar os problemas, olhando  também as regiões. Quando se fala em educação, você tem as escolas com cara de presídio, que é o que esse governo adora fazer. Faz mais presídio que escola, cultura, creche, teatro, praça esportiva. Precisamos pensar os vários problemas na raiz. Para falar de segurança, apesar de ter de falar na valorização dos profissionais – isso vale para todas as áreas – você não resolve apenas o problema da violência com efetivo da polícia, mas é necessário pensar o desenvolvimento da localidade a partir do papel da habitação, do esporte, da cultura, e como chave, amarrando esse conjunto, o ponto de partida é a educação. Enfim, temos de repensar o estado.

Quais são as possíveis alianças que podem ser pensadas?

A aliança principal é com os movimentos sociais, com o movimento sindical e com as necessidades povo paulista. A principal aliança é com o povo paulista. Nós estamos abertos a alianças. Estamos discutindo. Temos que deixar passar 7 de abril, que é a data de possíveis mudanças de partidos, depois têm as convenções. E aqui terá uma figura central nesse debate, que é a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Muitos partidos ainda têm dúvidas, eu tenho convicção de que o Lula será candidato. Nós vamos vencer obstáculos. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, e nós haveremos de furar as resistências. Lula será candidato. Essa é a minha convicção. Convicção jurídica, não eminentemente política. Eu não advogado, mas sou bacharel em Direito, e especialistas têm afirmado que Lula terá todas as condições. O Lula candidato, muitas coisas que muita gente está anunciando poderá ser revertida, inclusive no aspecto do estado de São Paulo.

No aspecto partidário, há aquelas alianças que são desde sempre descartadas, ou é possível conversar com todo mundo?

Veja, você tem um jogo aí, um campeonato em dois tempos. No primeiro turno, você tem alianças descartáveis, que não tem possibilidade de falar. Estamos falando em uma aliança prioritária com os movimentos sociais, uma composição com o sentimento da alma paulista. Os partidos golpistas não fazem parte de qualquer possibilidade, nem agora, nem depois. Então, aliança é com o eleitorado. Evidentemente, você tem partidos que nós estamos à disposição, das alianças históricas, os partidos de esquerda que desejarem caminhar conosco. Mas aí depende deles.

Quando falamos em partidos golpistas…

Estamos falando de PSDB, DEM, MDB, PPS, enfim, os partidos que apoiaram o golpe. Não tem qualquer possibilidade de conversa. Agora, nós vamos buscar o eleitorado, cada que tipo de posicionamento político que possa ter.

O desgaste que o PT possa ter sofrido de 2016 para cá é uma preocupação, algo que precisa ser conversado com o eleitor?

Evidentemente cabe todo um diálogo aqui, mas eu não vejo que o pior momento do PT seja agora. O pior momento nós já passamos. Do ponto de vista das eleições de governo do estado, presidente da República, deputado, senador, nós passamos pelo pior momento, que foi 2014 – 2016 é uma coisa totalmente fora de qualquer bitola. Mas se a gente olhar 2014, a nossa preferência partidária estava abaixo do que estamos hoje, e nós chegamos, vamos falar assim, no fundo do poço em 2016. Neste momento estamos num processo de recuperação, 2018 eu vejo como um processo de retomada do crescimento do PT. Porque em 2014 tivemos um baque forte, redução das nossas bancadas, estadual, federal, a não eleição da vaga do Senado… Em 2018 eu enxergo plenamente possível retomar o crescimento das nossas bancadas, eleger vaga no Senado, disputar pra valer as eleições para governador e colaborar para a candidatura do Lula presidente. É isso que está no nosso horizonte, no nosso planejamento, a partir desses dados que nós estamos falando. É possível fazer um governo em que as pessoas possam ter esperança. Os paulistas devem ter vergonha do jeito que nosso estado é governado. Temos o principal orçamento do país, só perde para a União. Em contrapartida, e você tem estados com hipoteticamente com economia mais fragilizada resolvendo nós históricos, a exemplo do Maranhão, que resolveu agora o problema da Meta 17 do Plano Nacional de Educação, a valorização dos professores. São Paulo diz que não tem orçamento para isso. Não tem orçamento ou falta visão política, prioridade? Desde o Mário Covas se ouve falar da despoluição do rio Tietê, mas o que foi feito efetivamente? A Sabesp está cumprindo seu papel ou está preocupada em dar dividendos para os acionistas da Bolsa de Nova York enquanto a rede está sucateada? Se você vai em São Bernardo, a Sabesp lá coleta esgoto e joga na represa. Eu sei que dá para fazer, porque em oito anos eu fiz como prefeito. E o Lula mostrou, em relação ao Fernando Henrique, que é plenamente possível fazer mais com menos orçamento. É obrigação de São Paulo ser referência em cada área.

Uma questão que provavelmente será lembrada é que os tucanos ganharam a eleição em São Bernardo. O processo eleitoral poderia ter sido de outro jeito?

2016 foi um tsunami, é um ponto fora da curva. É resultado da pressão midiática, criaram um estado emocional, especialmente em São Paulo, onde os tucanos levaram vantagem. Agora, analise os números das eleições, você vai ver que não foi tudo isso. O Doria, o maior fenômeno eleitoral de 2016, teve 30% dos votos do eleitorado da cidade de São Paulo, assim como o de São Bernardo, assim como o de Santo André. Eles foram eleitos invariavelmente na ordem de 30%, 33%, ou seja, grande parte do eleitorado não votou neles. Eles perderam para brancos e nulos. Ou seja, 2018 é uma outra eleição, completamente diferente. E os fenômenos, como é o caso do João, que disse que era trabalhador, mas depois parece que não chegado ao trabalho, era chegado a passear de jatinho pra lá e pra cá, de brincar no seu celular, disse que governava por WhatsApp… Enquanto isso, a cidade ficou abandonada. Cadê a expertise do gestor? Disse que não era político, mas o que fez foi viajar o Brasil e o mundo tentando ser candidato a presidente da República. Não conseguiu, mas como não gosta de cuidar da cidade, resolveu descumprir a sua palavra, que governaria São Paulo por quatro anos. Eu venho do interior, aprendi com meu pai e minha mãe lá na roça, puxando enxada, até 17 para 18 anos. Aprendi que a palavra é sagrada. Você deu a palavra, não precisa assinar documento. Agora, o cidadão, nem palavra e nem documento. Aparentemente, a gente tem aqui uma ausência de caráter. O outro, PSDB 2, ninguém sabe o que pensa direito, diz que vai dar continuidade ao que o Alckmin faz. Aí é que nós vamos debater e chamar a atenção. Afinal de contas, nós passamos muito perto em alguns momentos é hora de botar essa bola pra dentro de gol. Estou convencido que é plenamente possível fazer esse debate e levar o povo paulista que é possível ter um governo melhor que o PSDB.

O fato de o PT pela primeira vez em alguns anos ter uma eleição para escolher o candidato muda alguma coisa? (Em 24 de março, Marinho foi escolhido no encontro estadual do partido, contra o ex-prefeito de Guarulhos Elói Pietá.)

Não é a primeira vez, o PT em vários momentos fez, teve até prévia. Agora houve um debate e o encontro definiu. Não é este o dilema, o PT tem suas maneiras de encontrar suas candidaturas e construir sua unidade. O PT está unido, não tem absolutamente nenhum dilema em relação a isso. O que nós vamos agora é fazer o debate pra fora. O que temos de fazer? Debater pra valer com os adversários candidatos que estão colocados e, acima tudo, dialogar com o povo. Hoje são referências negativas. O governador busca a tragédia do Rio de Janeiro para vangloriar a segurança do estado, sendo que no estado nós temos a polícia que mais mata e a polícia que mais morre. Mais mata quem? O jovem negro da periferia, repressão à comunidade LGBT, um processo de discriminação contra a mulher, especialmente a mulher negra. Em contrapartida, quem mais morre é o jovem policial negro. Uma situação em que o povo tem medo de sua polícia tem alguma coisa errada. Precisamos valorizar os profissionais, o servidor público, de todas as áreas. Aqui é ausência de governo, ou visão autoritária de governo. Temos todas as condições, inclusive, de potencializar o orçamento, e não estou falando em aumentar imposto, estou falando em eficiência no combate à sonegação, porque esse é o relato que os fiscais da Receita me dão, uma sonegação admitida por parte dos atuais governantes.

E a Assembleia Legislativa? Dá para entrar naquele reduto inexpugnável?

Eu também tive reduto assim, passei o ano inteiro no primeiro mandato sem aprovar um projeto na Câmara, porque a Câmara estava consolidada, enfim… Mas a hora que eu fui para a população, debater, fazer o plano de curto, médio e longo prazo de forma participativa, onde o povo compreendeu o que estava sendo debatido, que a Câmara não queria aprovar, rapidamente os vereadores se convenceram. O Parlamento depende de vontade de dialogar, vontade de compor, de conversar, e isso nós temos de sobra.

Mas é possível eleger uma bancada maior?

Nós vamos trabalhar para isso. É isso que a gente chama a atenção da população: utilize bem a sua arma da democracia, seu título de eleitor. Procure votar em quem tem compromisso com o que você espera que a gente faça no estado de São Paulo, no Brasil. Mas a relação do Executivo com o Parlamento sempre é possível se você estabelece um canal democrático, transparente, de conversa e diálogo.

No plano federal, nós nem chegamos à campanha eleitoral de fato, mas se nota esse clima na rua, tivemos o atentado contra a caravana do ex-presidente. A tendência é que piore até outubro?

Vai ser uma eleição muito dura. Espero uma eleição bastante pegada, como diz o outro. Todos nós temos a obrigação de ponderar em relação a não aumentar o ódio na sociedade. A mídia tem uma responsabilidade grande sobre isso, o Supremo tem uma responsabilidade grande, de uma vez por todas botar a água no leito do rio do ponto de vista constitucional. Não pode ficar tomando decisões afrontando a Constituição, como  foi a decisão de prisão em segunda instância, sem considerar o trânsito em julgado. Isso parece que o Supremo sinaliza que vai resolver. Portanto, se a Constituição está respeitada, valorizada, respaldada, guardada pelo Supremo Tribunal Federal, isso também ajuda a baixar um pouco essa temperatura. Se a mídia tiver a responsabilidade – hoje eu vi, inclusive, vários editorais chamando a atenção, que isso é exagero –, você começa a colocar juízo na cabeça de muitos malucos aí. É preciso que a gente debata e não fique valorizando líder de facção. Bolsonaro é um verdadeiro líder de facção. Então, é preciso que as divergências da democracia sejam enfrentadas no campo das ideias. Não tem aqui o propósito de cada um se armar e sair dando tiro por aí, não existe. Agora, não espere que quatro tiros vá colocar o PT na retaguarda, que nós não vamos sair na rua, brigando, discutindo, brigando no campo das ideias. Não espere que a gente vá ficar com medo, vá pra casa, esperando que os fascistas, os retrógrados tomem conta das ruas. Vamos fazer o enfrentamento democrático. E restará aos governantes preservar a segurança de todos, isso é o que se espera. O Supremo, o presidente, o golpista, o ministro da Segurança, o secretário de Segurança, todos tratem de cumprir sua obrigação institucional, de botar ordem na casa.

Nesse sentido, houve a declaração do governador Alckmin, de que o PT colhia o que plantava. Hoje, parece que ele moderou um pouco essa declaração.

Essa maneira irresponsável do Alckmin, do Doria, de tentar navegar de forma oportunista em qualquer episódio catastrófico é bem o jeito tucano de ser. Nós plantamos paz, plantamos reforma agrária, salário mínimo decente, política de recuperação do salário mínimo, plantamos geração de emprego, 22 milhões de empregos com carteira assinada gerados no governo do nosso presidente Lula, plantamos respeito às mulheres através de políticas afirmativas, das mulheres, dos negros, juventudes, dos índios, comunidade LGBT, a partir das conferências que muitas vezes o governo Alckmin boicotou aqui. Por exemplo, a conferência da saúde mental. Aqui em São Paulo só teve porque eu, como prefeito, decidi convocar em São Bernardo e liderar um conjunto de municípios para fazer a conferência, que o governo do estado se recusou a fazer. Quem está plantando ódio são eles e seus representantes midiáticos. Pregados a paz, a tolerância, o respeito às diferenças. Quem está matando a periferia não é a nossa política. Pregamos reforma agrária e não conflito agrário, conforme o massacre de Carajás, a morte de Chico Mendes, de Margarida Alves, do padre Josimo.

Algumas pessoas acharam que depois do ataque o próprio Lula deveria repensar o esquema das caravanas, se resguardar um pouco mais. Ou ele deve continuar nas ruas?

Nós não podemos ser prisioneiros de meia dúzia de irresponsáveis fascistas. As autoridades policiais têm que dar conta de investigar e prendê-los. Eles são criminosos, não é o Lula. O Lula está fazendo uma pregação política, uma disputa política, democrática. Quem tem ideias tem coragem de ir pras ruas debater, quem não tem ideia se arma e vai dar tiro por aí. Daqui a pouco, nós vamos querer que fique aprisionado quem quer debater as saídas para o país. Evidentemente que o partido tem que ter a precaução de proteger a nossa liderança, mas não ficando dentro de casa. Nós estamos numa situação bastante complicada, precisamos recuperar a economia, e só vamos recuperar a partir da definição política das eleições, elegendo uma liderança que tenha a capacidade de dialogar com todos os segmentos.

Voltando a São Paulo, o governo estadual não conseguiu estabelecer ações integradas com o conjunto dos municípios? Como prefeito, você sentiu essa dificuldade de ter o governo como um parceiro de fato?

É a maneira deles de governar o estado. É a maneira ridícula do formato, que para liberar uma emenda de 100 mil reais, 150 mil reais, o prefeito tem de ir de joelhos lá no palácio ouvir um monte de pataquada para liberar uma emendinha. Não existe por parte desse governo a visão de reunir os prefeitos de cada região e avaliar o potencial de desenvolvimento daquela região. Se eu for governador, a primeira coisa que farei é mapear o estado por região e ter reunião com os prefeitos, para estabelecer, através dos conselhos, dos consórcios, um debate de priorizar o orçamento que couber àquela região de forma organizada. Não tem os prefeitos ficar percorrendo cada gabinete de deputado, pedir pelo amor de Deus a liberação de uma emendinha, porque o governo do estado não discute estrategicamente. Isso acontece com o ABC, mas acontece com cada região que eu estou visitando. É ridículo.

O fato de o governador ter anunciado uma Fábrica de Cultura onde seria o Museu do Trabalho, em São Bernardo, foi uma provocação? (A construção da obra do então prefeito Marinho foi interrompida por decisão judicial.)

Não sei se é provocação, é uma irresponsabilidade do governo do estado e do prefeito. Porque o prédio foi projetado, planejado, para uma coisa, eles querem fazer outra. Agora, cada cabeça, uma sentença. Prevejo até problemas futuros, mas eu não estou prefeito, o prefeito faça o que achar que tem de fazer, o governador que está com a caneta faça o que achar que tem de fazer. Mas eu chamo de irresponsabilidade, inclusive do Ministério Público, de aceitar um negócio desse. Porque ali foi planejado para ser um museu referência não só para o Brasil, mas internacional. Falar que não cabe museu é de um atraso político incomparável. Incomparável. Falar que o mundo do trabalho e do trabalhador não deve ter uma referência numa região como o ABC e do estado de São Paulo é de um atraso sem comparação.

Espero que a área cultural se manifeste em relação a isso. Nada contra as Fábricas de Cultura, mas aquele prédio não foi pensado para isso. Até porque eu não sei se as Fábricas de Cultura estão funcionando por aí. O relato que eu recebo é que não estão funcionando. Algumas que funcionam é por muita teimosa da classe artística.

Sobre o processo de escolha de candidatos, tem uma expressão muito comum hoje, que é empoderamento. No caso da escolha do PT para a vaga no Senado, em São Paulo, não podia se pensar na vereadora Juliana Cardoso, como se cogitou, em vez do (Eduardo) Suplicy, ou isso era uma questão meio fechada?

Veja, o Suplicy é uma entidade, uma autoridade, alguém que extrapola as bases do PT, uma pessoa muito querida e valorizada no partido, na sociedade paulista, na sociedade brasileira. O Suplicy poderia, caso ele topasse, ser candidato a deputado federal, que para o partido ajudaria muito do ponto de vista de pensar em maior bancada. Mas ele não se vê como deputado, ele está vereador, mas a fala dele é como senador da República, não deixou de ser senador. Ele reivindica o direito de ser candidato ao Senado. O PT não tem o direito de lhe negar, é disso que se trata. Então, o Suplicy é o nosso candidato ao Senado, e será o nosso senador. Nós não conseguimos elegê-lo em 2014, mas vamos elegê-lo agora, até para recuperar a vaga da Marta, que nos traiu. Nós vamos recuperar essa vaga, com Suplicy. E vamos observar, no processo de aliança, a segunda vaga. A segunda vaga é de Jilmar Tatto, caso a gente não tenha aliança que reivindique a segunda vaga do Senado. A segunda vaga e a vice estão disponíveis, para eventual debate de composição. Isso vai se dar próximo às convenções, mais provável durante o mês de maio, quando vai ficar mais claro o processo de composição, eventual aliança.

A Juliana tem espaço, é uma vereadora muito representativa na capital e pode ser, se ela assim o desejar, porque tem muitos apoiadores, muita gente reivindicando que seja, candidata a deputada federal. Então, o papel que eventualmente seria do Suplicy ela pode cumprir, e o empoderamento das mulheres. Afinal de contas, nós não temos na capital nenhuma deputada federal. Ela pode ser a nossa deputada federal, para se somar com a deputada Ana Perugini, com as demais companheiras candidatas, Ana do Carmo, que também quer ser candidata. Ou seja, ela não desprestigiada no processo, muito pelo contrário.

Você foi ministro do Trabalho e da Previdência em um governo caracterizado pelas chamadas políticas transversais, unindo ações de várias áreas. Isso influenciou, de algum modo, o crescimento do PIB. São políticas que precisam se retomadas?

Eu assumi o Ministério do Trabalho dia 14 de julho de 2005, no pico da crise do mensalão, onde até ali não estava consolidada uma boa relação do governo Lula com as centrais sindicais, com os movimentos sociais. Uma das tarefas que o presidente me pediu foi exatamente dar uma atenção, e eu coloquei uma pré-condição para assumir: que tivesse respaldo suficiente para fazer o debate em igualdade de condição com a economia, para criar uma política de valorização do salário mínimo e correção da tabela do Imposto de Renda. Fizemos todo o debate, já vinha se consolidando a economia, em 2005, e a partir daí nós consolidamos totalmente esse debate transversal de possibilidades de uma política onde, desde o processo de capacitação profissional, mas também o processo do salário mínimo, pudesse influenciar, junto com o Bolsa Família, o ProUni, o Fies, com tantos outros programas, o processo de oportunidade em especial para a juventude, e com isso pudesse arrastar a economia. Antes de ir para o ministério, eu propus, como presidente da CUT, na abertura do congresso da CUT, criar o consignado, para poder baixar os juros, e crédito para poder financiar o trabalhador. Tantas outras coisas, Economia Solidária, teve um conjunto de intervenções que nós influenciamos no sentido de alavancar a possibilidade de retomada do crescimento da economia.

Isso de 2014, 2015, para cá foi eliminado, o que explica inclusive parte o impacto da Previdência. Lá atrás teve o impacto positivo, que gerou superávit no regime geral, agora estamos com déficit porque são 14 milhões de pessoas a menos contribuindo para o sistema. Isso que tem de ser retomado. Quando o presidente Lula fala que, se for presidente, vai ter uma política onde quem ganha cinco salário mínimos não irá pagar Imposto de Renda na fonte, seguramente isso será injeção de ânimo para a retomada, e a própria economia vai fazer a diferença para gerar impostos, arrecadação, e enfrentar também a história de imposto sobre grandes governos. E sobre dividendos. O trabalhador, coitado, paga imposto quando compra um pastel. E quem tem dividendo não paga imposto, aberração total. É o povo pobre financiando isenção de impostos para o povo. E a sonegação dos bancos, é isso que está errado, de ponta cabeça, na nossa economia, no nosso regime tributário. Temos de rever tudo isso. O presidente Lula está muito convencido disso, nós também, o time inteiro, e vamos fazer o debate em larga escala, até para influenciar na eleição do deputado, do senador, de forma a ter um compromisso de mexer nesse conjunto de questões.

Depois da eleição, você acredita em um país um pouco mais pacificado, a partir de 1º de janeiro de 2019?

Com certeza. O país precisa de uma liderança para pacificar. Pacificar a política, para criar uma pacificação na economia, e social. O Lula talvez seja a liderança com maior capacidade pra fazer essa conjunção política, pra colocar a economia nos trilhos, pra voltar a ter esperança. Casa que não tem pão, todo mundo briga e ninguém tem razão, é a situação do Brasil hoje. Desemprego em alta, violência, gente matando lideranças populares e sociais, caso da Marielle. É o caso dos trabalhadores rurais, todo mês tem notícia de gente assassinada, é o caso do tiroteio na caravana do Lula. Nós temos de baixar essa temperatura.

Mas o discurso do governo é de que já estamos em plena retomada…

Nós chegamos tão no fundo do poço que há uma aparente retomada, que não é real. É preciso recuperar o poder de compra dos salários, gerar mais empregos, mais gente contribuindo para essa retomada. Jeito lá. Nós mostramos lá, porque os tucanos gostam de falar que entregaram o país redondo para o Lula. Mas até o consignado eu sugeri, com os companheiros dos metalúrgicos, a partir da realidade das agiotagens que se dava dentro das fábricas, nas lojas, nos bancos. Tinha trabalhador que na véspera entregava seu cartão para o agiota. Primeiro o banco recebia a parte dele, depois os agiotas. Se sobrasse alguma coisa, o trabalhador pegava pra levar pra família. Era a situação entregou pro Lula em 2003. Desemprego em alta, problema social terrível. Em 2005 começam a aparecer os resultados, gradativamente, foi estruturado a partir dos programas, não só o Bolsa Família. Foi o Plano Safra para a agricultura familiar, que no último ano do Fernando Henrique era 2,4 bilhões, mas executado 1,8 bilhão, o Lula iniciou no primeiro para 4,5 bilhões, o segundo foi para 7 bilhões… Criamos a obrigação de a merenda escolar ter pelo menos 30% de produtos da agricultura familiar. O conjunto de ações estruturantes foi levando a um processo consistente de retomada da economia. Todos os acordos coletivos com aumento real de salário. Agora, ter inflação já é festa nas categorias. Você não controla inflação pela recessão, pela restrição, conforme o Meirelles é mestre. É preciso que induza ao investimento para ter mais produção.

Já que você falou no Meirelles, do lado de lá existe uma divisão, nesse espectro direita-centro. Tem Meirelles, agora Temer diz que vai ser candidato, Bolsonaro, o presidente da Riachuelo (Flávio Rocha), o Alckmin. Eles estão com problemas para encontrar o anti-Lula?

Eles estão com muitos problemas. O Alckmin tenta ser, tem o Bolsotonto, Bolso alguma coisa, tá todo mundo querendo ser o anti-Lula. E nós não queremos ser anti ninguém, queremos cuidar do povo brasileiro, garantir o respeito às diferenças. Quem sabe eles fazem um par ou ímpar lá.

por Vitor Nuzzi, da RBA

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